O que a motivou a seguir carreira na magistratura?
O que me motivou a seguir a carreira na magistratura foi, em grande medida, a vivência pessoal com situações de injustiça, que fortaleceram em mim o desejo de contribuir para um Judiciário mais justo.
Atuei por quatro anos e meio como promotora de Justiça adjunta na Comarca de Palmeira dos Índios. No início de 1982, participei do concurso para ingresso definitivo no Ministério Público de Alagoas (MPAL). Após a primeira etapa, fui aprovada para a prova oral, na qual o candidato deveria sustentar, perante a banca examinadora, um tema previamente sorteado — à época denominado Libelo Crime Acusatório.
Éramos apenas dezenove candidatos e fomos chamados individualmente para a arguição. Curiosamente, fui a última candidata a ser chamada. O tema que me coube foi “incitação ao suicídio”. A exposição deveria durar entre 40 e 45 minutos; realizei minha sustentação por 43 minutos.
Ao final do processo, fui a única candidata reprovada. Diante daquela situação, levantei-me em silêncio e deixei a sala. No dia seguinte, encaminhei um ofício ao governador solicitando minha exoneração do cargo que ocupava. Em seguida, dirigi-me pessoalmente ao procurador-geral de Justiça para entregar o documento e apenas lhe disse que o MPAL não merecia que eu integrasse seus quadros. Após isso, retirei-me.
Ainda naquele mesmo ano, abriu-se concurso para a magistratura. Decidi prestar o exame e fui aprovada em excelente colocação. Em dezembro de 1982, tomei posse como juíza, assumindo a Comarca de São Brás.
Hoje, após 43 anos de magistratura, preparo-me para a aposentadoria com a serenidade de quem percorreu uma longa trajetória. Todas as minhas promoções ocorreram por merecimento, o que sempre considerei uma das maiores honras da minha vida profissional.
Quais momentos da sua trajetória na Justiça considera mais marcantes?
Ao longo de mais de quatro décadas de magistratura, vivi momentos muito significativos, especialmente nas funções administrativas.
Guardo com especial carinho o período em que estive à frente da Escola Superior da Magistratura, como Diretora-Geral, sempre com apreço pela formação e pelo aperfeiçoamento dos magistrados.
Tive a oportunidade de imprimir também a minha feminilidade na condução das atividades, contribuindo para um Judiciário mais plural e sensível às diversas expressões da sociedade.
Posteriormente, exerci funções como Corregedora-Geral da Justiça, Vice-Presidente e Presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas no biênio 2009/2010, tornando-me a primeira mulher a presidir a Corte alagoana.
Ter sido presidente do TJAL foi um momento histórico, que simbolizou não apenas uma conquista pessoal, mas também um avanço importante para a presença feminina nos espaços de liderança do Judiciário.
Em março de 2010, tive ainda a honra de assumir interinamente o Governo do Estado de Alagoas, também como a primeira mulher a ocupar essa função.
Apesar dos cargos exercidos, considero que nada foi mais significativo do que o compromisso com as causas sociais e a atenção às pessoas em situação de vulnerabilidade.
Como a senhora vê o avanço da presença feminina na magistratura e nos espaços de decisão?
Quando ingressei na magistratura, em 1982, a presença feminina ainda era bastante limitada. Ao longo dessas quatro décadas, acompanhei uma transformação significativa, com mais mulheres ocupando cargos na magistratura e nos espaços de decisão.
Esse crescimento representa um avanço na busca por igualdade e reconhecimento da competência das mulheres no Judiciário. Ainda há caminho a percorrer, especialmente nos cargos de liderança, mas sigo confiante de que as próximas gerações continuarão fortalecendo essa trajetória.
Que mensagem deixaria para as novas gerações que desejam seguir carreira no Judiciário?
Deixo uma reflexão que sempre norteou a minha própria trajetória: a magistratura não é apenas uma profissão, mas sobretudo uma missão de serviço à sociedade.
Cada pessoa que ingressa nessa carreira traz consigo dons, talentos e capacidades que devem ser colocados a serviço do bem comum. O exercício da Justiça exige preparo técnico, equilíbrio e sensibilidade, além de compromisso com a coletividade. Cada decisão tem impacto direto na vida das pessoas e na sociedade.
Acredito que o maior legado que um magistrado pode deixar é o de ter exercido sua função com integridade, humildade e profundo senso de responsabilidade social.
Que as novas gerações nunca percam de vista que a verdadeira grandeza da magistratura está em servir — à Justiça, às instituições e à sociedade.
E assim termina essa edição! Esperamos que tenham gostado!
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